Terça-feira, 6 de Novembro de 2007

Opinião #63

 
Se há coisa de que os portugueses gostam é de não gostar. Acho mesmo que é o nosso principal hobby e defeito. Não gostamos nunca de nada e de (quase) ninguém. E gostamos de dizer e mostrar que não gostamos.
 
Os blogues são um bom exemplo. 90% dos comentários que são deixados são... a dizer mal, criticar, ofender se for preciso. Criticar, quem o faz melhor que os Críticos, só o nome... é do Cinema (nunca percebi porque é que não escolhem críticos que gostem de filmes) à música (sobretudo se for portuguesa, claro) passando pelos "articulistas de opinião" e demais comentadores e opinativos (nunca têm nada sobre o que dizer bem? isso deve ser tão deprimente, e ainda ter que escrever sobre tão dramática existência).
 
Um exemplo mais terreno, o cristão país ao sair das dominicais missas comenta o que o padre fez e disse de bem ou de mal? Para não falar no cabelo da Gertrudes, que horror, e tá mais gorda.
 
Na estrada (ou auto-dita, rua, beco, rotunda, parque de estacionamento ou mesmo por aqui que deve ir lá dar) é demonstradamente onde os portugueses mais gostam de não gostar. Já não digo o estranho fenómeno de não gostarmos de auto-estradas com três faixas de rodagem e o consequente desprezo que dedicamos à da direita, que é, como toda a gente sabe, aquela onde na verdade se consegue andar mais rápido. O ponto alto do não gostar, em termos automobilísticos é para mim o termos conseguido transformar a condução num misto de batalha medieval e arte marcial, com um pouco de rally à mistura. Que forma mais radical de não gostar do que a atitude, "se quiseres bater, bate, morremos os dois mas a culpa foi tua"? Isto é de Cruzado!
 
Não gostamos da televisão que vemos mas gostamos de dizer que não gostámos do que vimos. Nem gostamos das revistas que compramos para ver as pessoas de que não gostamos e poder falar mal delas (trabalho esse já de si muito facilitado pelas próprias revistas que não gostam das pessoas que lá aparecem para eles poderem escrever algo de mau sobre elas).
 
E já notaram a diferença no facto de que nós, não é dos políticos que não gostamos, é de políticos. Quando um político deixa de ser político, desde que não se arranje uma coisa sobre o gajo, um tacho, uma corrupção, passa a ser eventualmente boa pessoa, pode ir para alto comissário, comentador ou mesmo presidente (conta mais como rei do que como político e reis não faz mal porque já não há) porque quem antes era um "ladrão, incompetente, mentiroso, incumpridor, traidor, ditador,..." era o político, não o gajo. Num contínuo lógico claro que gostamos menos do político com poder do que do político sem poder, mesmo que este tenha acabado de vir do poder. Ao perde-lo fica logo e ser menos não gostado do que o que agora está no poleiro e que antes era o menos não gostado quando o que o que é agora o menos não gostado estava lá e era o mais não gostado. É a isto que se chama alternância.
 
Os exemplos são inúmeros, infindáveis e o texto já vai longo para uma opinião. E eu não gosto de opiniões muito extensas. Mesmo que sejam minhas.
 
 
publicado por joao moreira de sá às 15:02
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Arcebispo de Cantuária

Uma mente delirante e não muito normal encerrada num corpo com 43 anos. Presentemente desempregado mas com boas perspectivas de conseguir vir a trabalhar num call-center. Escrevo porque não gosto lá muito de falar e como irresponsável que sou, acredito que um dia ainda irei conseguir ser pago para escrever. jmoreiradesa@gmail.com

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