Segunda-feira, 17 de Maio de 2010

As desculpas de Passos Coelho

Como alguém me disse, uma daquelas pessoas que só acham bem que emitamos opinião quando é igual à sua, dispensável e irrelevante quando diferente, assim é a minha de facto, dispensável e irrelevante. Mas o direito de a ter, tenho-o e até, onde as coisas podem chegar, de a publicar. Lê quem quer e comenta, habitualmente, quem se incomoda. Por isso a publico.

Será pouco provável alguma vez lerem uma opinião minha em defesa ou ataque a qualquer partido político, pessoa, ideologia, de forma incondicional. Reservo-me o direito a concordar ou não com actos e factos, pouco importa de quem, se da esquerda ou direita, cima ou baixo, frente ou de trás. Funciona de uma forma muito mais básica: perante um facto X penso em pensar o que pensa a minha cabeça de X.
Básica, disse, é a forma, básico, logo, é o conteúdo, que fique a profundidade para as elites pensantes. Acontece que, uma chatice, a maioria das pessoas não pensa nem tende a seguir as "ordens", conselhos, opiniões das elites opinativas. Têm, como eu, esta teimosa mania de pensar pela sua cabeça e gerar uma opinião própria.

Acontece também que é essa maioria de pessoas quem de facto manda, vota, elege governos e governantes. Barack Obama percebeu-o e soube como poucos antes usa-lo a seu favor. Passos Coelho faz o mesmo. Pouco importa se o pedido de desculpas é ridículo, lógico, hipócrita, sincero, descabido, incoerente, sentido, como pouco importa o que os opinion makers digam ou escrevam sobre o mesmo, porque eles sabem que pouca opinião de facto fazem. Importa sim a forma como o mesmo é percepcionado e que opinião gerará nas "massas". É para elas que Louçã, Portas e agora Passos Coelho falam. Os dois primeiros não se têm dado mal com isso. Obama deu-se muitíssimo bem.

Claro que isto é o mero campo da comunicação. Governar será outra mas eu de política não percebo nada, não opino.

 

João Moreira de Sá

publicado por joao moreira de sá às 17:56
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5 comentários:
De Alda Telles a 17 de Maio de 2010 às 22:27
Mais do que a apregoada "responsabilidade", apoio a coragem política de Passos Coelho ao viabilizar as medidas necessárias. Já quanto ao episódio do "perdoa-me", tenho sérias dúvidas quanto à sua eficácia, quer política (para as elites) quer do ponto de vista da comunicação.
Um pedido público de desculpas é uma decisão que deve ser muito ponderada. Tem implicações muito fortes na construção de uma figura pública e, mais ainda num político.
Vivemos numa época em que, em situações extremas, o pedido de desculpas é muitas vezes a única saída para reputações abaladas por opinião pública fortemente negativa e para as quais não existe justificação aceitável (caso da Igreja Católica em relação aos casos de pedofilia, caso do Tiger woods apanhado em adultério, caso de Gordon Brown apanhado a chamar reaccionária a uma mulher... reaccionária).
Não é o caso. O PSD soube explicar muito bem (quiçá melhor que o governo) as razões do seu apoio a medidas impopulares. Por essa razão, as desculpas de Passos Coelho foram interpretadas como pura demagogia.
Serão bem aceites pelas "massas", porque demonstra "humildade"? Não sei. Sei que os políticos (e não só) se mostram cada vez menos capazes de enfrentar e assumir situações ou decisões, por vezes difíceis, sob o terror permanente da opinião pública e da perseguição mediática. Tal como disse em relação a Gordon Brown , estamos a criar políticos medrosos.
Neste caso, com medo de uma reacção à qual não poderia fugir se estivese no poder.
De joao moreira de sá a 17 de Maio de 2010 às 22:33
Concordo plenamente e penso que o ponto chave é precisamente «Serão bem aceites pelas "massas", porque demonstra "humildade"? Não sei.». Eu também não, mas penso que PPC com ou sem consultores, acreditou que sim.
De Amândio Guimarães a 17 de Maio de 2010 às 22:33
Passos Coelho foi a face de uma nova politica, ou melhor, uma nova de maneira de fazer politica em Portugal, trabalhar por Portugal, quanto ao pedir desculpas, compreendo, tinha um compromisso com o seu eleitorado, com o PSD, "defraudou-o" acho que fez bem, se foi aceite pelo eleitorado necessário para a vitória numas legislativas, veremos...
De Fernando Moreira de Sá a 17 de Maio de 2010 às 22:40
Mas o certo é que defraudou. O que falta saber é se tinha mesmo de o fazer. É essa a dúvida que, no meu caso, é quase existencial, ehehehehe.

Já agora, Alda, mais grave do que estarmos, eventualmente, a criar políticos medrosos é se os transforma-mos, que me perdoe o Arcebispo, em merdosos.

Um abraço.
De Ivone Ferreira a 21 de Junho de 2010 às 18:11
O caso "Desculpa-me" é interessante para estudo. Creio que o que Passos Coelho quis foi mostrar que é diferente do "arrogante" e "autoritário" 1º ministro. Foi essa a "marca" que quis passar. Como pessoa, penso que os pedidos de desculpa só enfraquecem quem os faz. Acho mesmo ridículo estarmos a pedir desculpa, por exemplo, aos Africanos, pela escravatura. Um facto histórico que já mostrámos, também através de actos e palavras, que não queriamos que continuasse. Qualquer dia temos que pedir desculpa aos dinossauros por uma qualquer intempérie ter acabado com a sua raça. Melhor do que pedir desculpa é evitar que tenha que se pedir desculpa. Se Passos Coelho pede desculpa é porque sente que errou, que fez algo que não devia ter feito. Então, porque é que o fez? pela "responsabilidade"? Os grandes políticos, pela Pátria lutam, criam, constroem, avançam e vencem. Não pactuam com o que está errado ou com o que não cumpre com a sua "palavra de honra". Saberão os políticos portugueses actuais a importância de honrarem a sua palavra? isto é, de cumprirem o que um dia disseram ao eleitorado, que os tomou como pessoas de bem? Oxalá Passos Coelho não se arrependa deste "modesto" pedido de desculpas que só mostra que, com tão pouco tempo de caminho percorrido, já sentiu a necessidade de se desculpar por não honrar a sua palavra anterior...mal vai o País que tais filhos têm.

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Arcebispo de Cantuária

Uma mente delirante e não muito normal encerrada num corpo com 43 anos. Presentemente desempregado mas com boas perspectivas de conseguir vir a trabalhar num call-center. Escrevo porque não gosto lá muito de falar e como irresponsável que sou, acredito que um dia ainda irei conseguir ser pago para escrever. jmoreiradesa@gmail.com

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